"Cadê a experiência?" — a pergunta que nunca fazem pro político de 70 anos que errou por décadas
Photo: Maryland GovPics, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Se você tem menos de 30 anos e já manifestou vontade de se candidatar, provavelmente ouviu aquela frase clássica, geralmente dita com um sorriso condescendente: "querido, política é coisa séria, você ainda não tem experiência".
A pergunta que não se faz é: experiência de quê, exatamente?
A conta que ninguém mostra
Segundo dados do TSE das últimas eleições municipais, a idade média dos vereadores eleitos no Brasil passava tranquilamente dos 50 anos. Enquanto isso, mais da metade da população brasileira tem menos de 35. A câmara que decide sobre transporte escolar, reforma de escola e política de primeiro emprego é majoritariamente composta por gente que pegou ônibus escolar pela última vez há quatro décadas.
E aí vem a pergunta óbvia: se experiência fosse sinônimo de bom governo, o Brasil deveria ser a Suíça tropical. Não é. Então em que exatamente essa experiência toda se converteu?
O currículo que ninguém audita
Repare na assimetria do argumento. Quando um político veterano vota contra um projeto de educação que depois fura, quando assina emenda que desvia verba da saúde, quando aprova um contrato de ônibus que deixa a cidade parada — ninguém questiona a experiência dele. O erro vira "complexidade da gestão pública".
Já o jovem que erra uma resposta numa entrevista vira prova de que "não está preparado". A ficha corrida do veterano é tratada como ativo; o histórico limpo do jovem é tratado como vazio.
Experiência sem prestação de contas não é qualificação, é anuidade de mandato. É tempo acumulado, não competência demonstrada.
Jovem no poder funciona — e tem endereço
O argumento da inexperiência desmorona rápido quando olhamos pra fora do país.
- Nova Zelândia: Jacinda Ardern assumiu primeira-ministra aos 37 anos e virou referência internacional em gestão de crises, da tragédia de Christchurch à pandemia.
- Chile: Gabriel Boric chegou à presidência aos 35 anos, saindo de um movimento estudantil — o mesmo caminho que aqui no Brasil a gente trata como "agitação de campus".
- Finlândia: em 2019, o país foi governado por uma primeira-ministra de 34 anos liderando uma coalizão de partidos de centro-esquerda — e seguindo como um dos países com melhor qualidade de vida do planeta.
Nenhum desses lugares virou caos. O que mudou foi a pauta: mudança climática, saúde mental, moradia — temas que os governos de média de 60 anos continuam empurrando com a barriga.
O que a "experiência" realmente significa na prática
Não estamos dizendo que todo veterano é ruim ou que todo jovem é bom. A questão é outra: experiência não pode ser critério seletivo aplicado só num sentido.
Quando o deputado de oito mandatos diz que jovem não sabe nada, vale perguntar: esse senhor já foi ouvido por alguma comissão de ética? Quantos dos projetos que apresentou foram aprovados? Qual foi o último problema concreto que ele resolveu no bairro dele?
Se a resposta for silêncio, talvez o estagiário — perdoem, o jovem candidato — esteja mais qualificado do que o professor da sala.
Do discurso pra prática
Pra galera que tá lendo e pensando em entrar no jogo, três coisas que valem mais do que a palavra "experiência":
- Ficha limpa de verdade: transparência não é só não ter processo, é mostrar de onde vem cada real da campanha.
- Pauta com nome e endereço: não "sou a favor da educação", mas qual escola do seu bairro tá com o telhado furado.
- Prestar contas antes de ser eleito: quem explica tudo antes da eleição não vai sumir depois dela.
A idade nunca foi medida de capacidade. Foi sempre um filtro pra decidir quem tem voz — e quem escuta. A próxima eleição é a chance de inverter isso. O estagiário, afinal, aprende rápido. O que se pergunta é se os donos do poder querem mesmo ensinar.