Menos de 30 anos, mais de 10 mil votos: a nova geração que está ocupando as câmaras municipais
Photo: Marina Silva from Brasil, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Quando Ana Clara, de 24 anos, decidiu se candidatar a vereadora em uma cidade de médio porte no interior de Minas Gerais, muita gente duvidou. Sem dinheiro de grupo político, sem sobrenome tradicional e com uma campanha montada basicamente no Instagram e em rodas de conversa na universidade, ela foi eleita com mais de 10 mil votos. Sua história não é exceção: é o retrato de uma transformação silenciosa acontecendo nas eleições municipais por todo o Brasil.
Quem são os vereadores jovens?
O perfil dessa nova leva de eleitos tem padrões claros. A maioria chega à política por meio de movimentos estudantis, coletivos de bairro, projetos sociais ou mandatos ativistas. Muitos são universitários ou recém-formados em áreas como direito, comunicação e educação. E, diferente do estereótipo do político de carreira, boa parte deles decidiu se candidatar depois de se frustrar com a ausência de políticas públicas para a juventude na própria cidade.
Os números confirmam a tendência. Nas últimas eleições municipais, cresceu o percentual de candidatos e eleitos com menos de 30 anos, impulsionado também por mudanças na legislação que reservam parte do tempo de propaganda eleitoral para candidaturas jovens. Não é favor: é correção de um histórico de sub-representação.
O que eles propõem
Se você olhar os planos de governo desses vereadores, alguns temas se repetem:
- Primeiro emprego e empreendedorismo jovem: programas municipais de estágio, incubadoras e desburocratização para pequenos negócios.
- Transporte público: meia-passagem ampliada, integração e horários compatíveis com a vida estudantil.
- Saúde mental: centros de atendimento voltados para adolescentes e jovens, em parceriaia com escolas e universidades.
- Educação e cultura: ocupação de espaços públicos com atividades culturais e reforço de políticas para escolas da rede municipal.
Claro que, entre promessa e aprovação de projeto de lei, existe um caminho cheio de obstáculos. "No primeiro mês, entendi que a câmara tem seus próprios ritmos e suas próprias pressões. Precisei aprender a construir maioria projeto por projeto", conta um vereador de 27 anos eleito no Nordeste, que preferiu não se identificar enquanto negocia sua primeira lei de estágios municipais.
Os desafios de legislar para a própria geração
Ser jovem na política não é só energia e novidade. Há resistência explícita: colegas mais velhos que desqualificam propostas como "ingenuidade", dificuldade de acesso a recursos de campanha nas eleições seguintes e a cobrança dupla de provar competência enquanto representam uma pauta que muitos ainda tratam como secundária.
Ao mesmo tempo, esses mandatos carregam uma vantagem enorme: legitimidade. Quando um vereador de 23 anos fala sobre juventude, ele fala de vivência, não de relatório. E a conectividade dessa geração transforma o mandato em algo mais próximo de um canal aberto do que de um gabinete fechado — muitos fazem prestação de contas semanal por stories e recebem demandas por mensagem direta.
Quer entrar? Comece por aqui
Se a ideia de se candidatar bateu na sua cabeça, o caminho é mais acessível do que parece — mas exige estratégia:
- Seja filiado a um partido por pelo menos seis meses antes do pleito. Escolha um com núcleo jovem ativo na sua cidade.
- Construa causa antes de construir campanha. Quem já atua em coletivo, igreja, escola ou movimento social chega à eleição com rede e histórico.
- Conheça as regras: idade mínima de 18 anos para vereador, domicílio eleitoral na cidade e contas regulares.
- Comece pequeno e cedo. Grêmios estudantis, conselhos tutelares, conselhos municipais de juventude — tudo isso é treino de mandato.
- Não espere estrutura pronta. As campanhas que funcionaram começaram com celular, grupo de WhatsApp e muito pé na rua.
A lição que fica é simples: a média de idade das câmaras só muda quando gente jovem efetivamente entra na disputa. O jogo não vira sozinho — vira quando alguém decide que é capaz de virar. Talvez esse alguém more na sua rua.