Te pedem RG pra tudo, menos pra explicar por que sua pauta não foi votada
Photo: José Luiz, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Todo ano é a mesma encenação. Setembro chega, as escolas mobilizam as turmas, os cartórios eleitorais fazem mutirão, e a mensagem é sempre a mesma: jovem, cidadania se exerce com documento na mão. Tira o título, tire a primeira votação, seja um eleitor consciente. Aí você tira. Vota. E descobre que a parte fácil era essa.
Porque depois da urna, a conversa muda. O documento que abriu a urna não serve pra abrir a pauta.
O número que ninguém quer explicar
Nas últimas eleições municipais, a abstenção entre eleitores de 16 e 24 anos passou de 25% em várias capitais — e em algumas chegou perto de um terço do eleitorado jovem. A leitura preguiçosa, aquela que circula em editorial de jornal, é a de que jovem não se interessa por política.
Só que os dados contam outra história. Pesquisas de participação digital mostram que o público de 18 a 29 anos é o que mais engaja com questões públicas na internet: comenta, organiza, pressiona, assina. O que cai não é o interesse — é a confiança de que votar muda algo.
E aqui está a contradição que incomoda: cobra-se maturidade de quem vota, mas ninguém cobra representação de quem foi eleito.
O que foi votado enquanto você estava na aula
Pegamos uma amostra de pautas de câmaras municipais em cidades de médio porte e comparamos com as principais demandas que jovens eleitores listam em pesquisas de opinião: transporte acessível, internet nas escolas, saúde mental, primeiro emprego, reforma de espaços esportivos.
O resultado? Nas casas analisadas, menos de 5% das matérias votadas num ano inteiro tocavam diretamente nesses temas. Em compensação, houve sessões solenes para homenagear empresários, títulos de cidadania para aliados do executivo e uma quantidade impressionante de requerimentos de felicitação.
Ou seja: o jovem cumpriu a parte dele. O sistema não cumpriu a sua.
Maturidade pra quê, se a agenda é de outro século
A retórica oficial ama a frase "falta maturidade ao eleitorado jovem". Mas maturidade, na prática, virou sinônimo de aceitar a pauta que já estava na mesa antes de você chegar. É pedir pra quem acabou de tirar o título que se entusiasme com discussões sobre denominação de rua enquanto a meia-entrada no transporte vira item de rodapé.
Não é apatia. É racionalidade. Ninguém continua investindo tempo num processo que devolve pouca coisa.
A escuta não é favor, é obrigação
Aqui mora o ponto central: participação não se cobra, se oferece. Uma democracia que só escuta o jovem a cada dois anos, em cima da hora da eleição, não está convidando — está cobrando ingresso pra um espetáculo que não tem o seu nome no elenco.
A boa notícia é que essa conta pode ser invertida. Quando coletivos estudantis conseguem emendar audiências públicas, quando observatórios de mandato escaneiam pautas e expõem o que foi ignorado, a escuta deixa de ser caridade e vira pressão. O mesmo documento que te deu o voto pode te dar a caneta — basta cobrar que a pauta da sua geração entre no plenário.
O título de eleitor é verdadeiro. Falta a política virar verdadeira também.